Pe. Geraldo Dias, 50 anos de Sacerdócio

Pe. Geraldo Dias, 50 anos de Sacerdócio

Em Belo Horizonte, no dia 19 de abril, uma solene celebração para comemorar os 50 anos de sacerdócio de Pe. Geraldo Dias, ordenado em 19 de março de 1963,

Neste dia 19 de abril, Pe. Geraldo Dias comemorou com os paroquianos da Paróquia Nossa Senhora da Divina Providencia, de Belo Horizonte, os seus 50 anos de sacerdócio. Na ocasião foi lançada uma revista comemorativa com a sua história vocacional. Esta revista se abre com um depoimento do Pe. Geraldo Dias:

“Em cada homem sempre há um menino.

“Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele”. (Lucas 18-17)

Passaram-se cinquenta anos. Minha ordenação sacerdotal em Roma, no dia de São José, 19 de março de 1963, foi e é um dom precioso que recebi. Eu venho me empenhando para preservar esse dom durante todo esse tempo. Embora consciente de minhas limitações, sinto um grande contentamento. Na verdade, eu sairia dando pulos de alegria por aí para que todos pudessem ver e proclamar comigo: “O Senhor é bom e sua misericórdia é infinita”. Isso mesmo. A misericórdia de Deus é que me sustentou, que me possibilitou chegar até aqui. Por outro lado, constato que a bondade divina se manifesta também através das pessoas e, então, percebo que Deus se multiplicou em milhares e milhares de pessoas.

Vejo a mão abençoada de Deus nas famílias que me acolheram, apoiaram e incentivaram por onde passei. Em todas as comunidades para onde fui transferido, ao longo de meio século, sempre repeti para mim mesmo: “Deus me plantou aqui e aqui devo florescer”. Busquei, em todos esses anos, vivenciar o carisma orionita de amor e fidelidade à Igreja e ao Papa, operando nas obras Orionitas em favor dos mais abandonados, os mais esquecidos e os mais pobres. Vejo, com o coração em festa, que até aqui o Senhor me abençoou e me amparou para que eu pudesse exercer o ministério sacerdotal, com a alma de um menino.”

 

Tudo começou em Cipotânea, uma cidade da Zona da Mata mineira, quando Pe. Geraldo nasceu, em 5 de novembro de 1935, filho de José Dias Brum e Guilhermina Grossi. O casal teve outros 10 filhos, dos quais três foram padres: José, Geraldo e Nivaldo.

A revista comemorativa percorre a linha de tempo de vida e de sacerdócio orionita do Pe. Geraldo. Publicamos a seguir a sua história até o momento da sua primeira missa no Brasil. Os passos sucessivos, com uma ampla seleção histórica de fotos, estão descritos na revista que será enviada para todas as comunidades orionitas.

Cipotânea, onde tudo começou

Localizada na Zona da Mata e na microrregião de Viçosa, Cipotânea é conhecida como a terra de padres e de bispos. Pelo menos cinquenta padres e cinco bispos nasceram nesta cidade fundada em 1711, à margem do rio Xopotó. Durante muitos anos, o lugar chamava-se São Caetano do Xopotó e ainda hoje abriga uma população de apenas 6.500 habitantes, segundo dados do IBGE.

1935 – No lugarejo então chamado de São Caetano do Xopotó, nasce, em 5 de novembro, o segundo dos dez filhos de José Dias Brum e Guilhermina Grossi, a dona Guilú. Dias depois, em 15 de novembro, o menino recebe o nome de Geraldo e o batismo na igreja matriz de São Caetano.

É a típica família mineira do interior, religiosa, trabalhadora e feliz. José trabalha na usina hidrelétrica local, onde é o encarregado de ligar e desligar a luz todos os dias. Na cidade, é dono de um bar com sinuca e na área rural mantém um moinho de fubá e uma máquina de limpar arroz. O garoto vive aqui até os nove anos de idade e desse tempo guarda recordações inesquecíveis. Com os seminaristas de Mariana que chegavam de férias, Geraldo aprende a ajudar missa em Latim. Pequenino, responde ao sacerdote logo no início da celebração:

Celebrante: Introibo ad altare Dei.

Coroinha: Ad Deum qui laetificat juventutem meam.

O pior é o Confiteor Deo Omnipotenti – longo, difícil, interminável.

Depois da missa, o menino ajuda em casa. Busca lenha no mato para alimentar o fogão da cozinha e como ainda não há água encanada, carrega água da fonte para o consumo familiar. Nas horas vagas, arma arapuca para pegar passarinho, chupa manga no quintal, brinca na ponte de ferro, e toma banho de rio. Nada se compara à experiência de nadar de braçada nas águas verdes do rio Xopotó. Ele recebe três afluentes, um deles o rio Espera. Em época de chuva, o Xopotó cresce, forma enchentes que encanta os olhos da meninada. O menino cursa o terceiro ano primário e aguarda, com ansiedade, pelas festas de Cipotânea: o padroeiro São Caetano, o mês de maio, mês de Maria e de barraquinhas com cartuchos de amêndoas distribuídos aos anjos da coroação – e aos coroinhas, também; o congado na praça, na festa do Rosário.

Alto Rio Doce

1947. Os Dias mudam-se para Alto Rio Doce, a 18 quilômetros de Cipotânea. Vão morar em Ponte do Beto, a quase uma légua da área urbana do município. Por isso, Geraldo vai de cavalo, ou a pé, para a aula no Grupo Escolar, até concluir a quarta série. Encanta-se com as enchentes do rio Doce. O cônego José Pinto é venerado com fama de santidade e a admiração pelo sacerdote desperta em Geraldo a vontade de também servir a Deus.

1949. Em fevereiro, a viagem para o seminário. Em companhia de um cavaleiro amigo da família, segue a cavalo até Mercês, onde há um ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil. Agora, de trem e em companhia de seu padrinho de batismo, que reside em Mercês, continua a viagem até Santos Dumont e, daí, até Miguel Burnier. No Seminário Sagrado Coração de Jesus, dos padres de Dom Orione, estudam cerca de 80 seminaristas. A 40 quilômetros de Ouro Preto, Miguel Burnier, ou São Julião, é um centro de mineração. Pioneira na siderurgia nacional, a Usina Wigg mantém em funcionamento um alto-forno para a produção de ferro gusa.  Dona Alice Wigg, que construiu o Santuário do Sagrado Coração de Jesus com fartura em mármore de Carrara, é benfeitora da congregação dos padres de Dom Orione, a Pequena Obra da Divina Providência.

1951. Aos 16 anos de idade, Geraldo recebe a batina. Está no terceiro ano do ginásio.

1952. Passa um ano em Paraíba do Sul, no estado do Rio, onde a congregação religiosa possui uma casa.

1953. Retorna a Miguel Burnier, para conclusão do ginásio.

1954. Faz o Noviciado em Belo Horizonte.

1955. Em 25 de março, ainda em Belo Horizonte, sua primeira profissão religiosa.

Rio – Santuário de Fátima, 1955

O endereço agora é o Santuário de Fátima, na Rua Riachuelo. Os alunos estudam em casa o primeiro ano de filosofia. A falta de professores habilitados é superada pela vontade de aprender. No bonde, lá vão os seminaristas vestindo batina preta. No Rio, o carnaval explode. O calor, também. Um evento importante é o 36º Congresso Eucarístico Internacional, que atrai milhares de católicos à Cidade Maravilhosa. Os pais e os padrinhos de Geraldo Dias também participam do congresso. A televisão engatinha no Brasil. Assistir TV na casa de amigos, no bairro de Fátima, é um bom programa nas tardes de domingo. TV em preto e branco, mas irresistível. O primeiro banho de mar. Naqueles tempos não era permitido tirar a batina para jogar futebol, muito menos ir à praia. Um padre amigo, da histórica igrejinha do Saco de São Francisco, em Niterói, resolve o problema. Leva os seminaristas a uma praia deserta. É a praia de Itaipu, sem ninguém, somente mato. Na “moita”, os rapazes tiram a batina. É a primeira vez na água salgada, peles brancas aos sol de carioca.

Curitiba, 1956

Os alunos são transferidos do Rio para o Paraná para prosseguimento dos estudos de filosofia com os padres capuchinhos. Eles moram e trabalham na Cidade dos Meninos Flora Camargo Munhoz da Rocha, uma instituição que abriga 300 menores em regime de internato. Os seminaristas têm jornada dupla de atividades: estudo de filosofia pela manhã e assistência aos menores na parte da tarde. Foram dois anos de estudo e de tirocínio. No final de semana iam para Quatro Barras passar filmes com projetores 35mm, para a comunidade no salão Paroquial.

Roma 1959/1963

Geraldo Dias e seus colegas – Geraldo Maurício, José Nascimento, Pedro Lopes, Vicente Lourenço Jacob e Aloísio Hilário de Pinho _ são enviados pela congregação para estudar teologia na Itália. A viagem de navio, no percurso Rio/Gênova, demora quase quinze dias. Em Roma, residem na Via Sette Sale. Em setembro, matrícula-se na Universidade de São João de Latrão. Na Pontifícia Universidade Gregoriana, dirigida pelos jesuítas, clima de frenesi religioso e de muito debate teológico: o papa João XXIII convocara o Concílio Vaticano II. Eleito papa em outubro de 1958, em substituição a Pio XII, João XXIII, então com 76 anos de idade, queria promover o “aggiornamento”, ou seja, a atualização da Igreja Católica. 1962. Em 11 de outubro, agora com 80 anos de idade, João XXIII preside a abertura do Concílio Vaticano II, na Basílica de São Pedro. No total, 2.448 bispos do mundo, chamados de padres conciliares, desembarcam no Vaticano atendendo à convocação do Sumo Pontífice. Um desses padres conciliares é Dom José Nicomedes Grossi, mineiro de Cipotânea e bispo da diocese de Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Marinheiro de primeira viagem, Dom Grossi pede a assistência do conterrâneo e Geraldo Dias o acompanha à sessão de abertura do grande Concílio.

1963. Em 19 de março, dia de São José, Geraldo Dias recebe a ordenação sacerdotal em cerimônia oficiada pelo cardeal Luigi Traglia. Com ele, são ordenados também seus colegas, entre eles Aloísio Hilário de Pinho, mais tarde sagrado bispo de Tocantinópolis, em Tocantins. No dia seguinte, a primeira missa, celebrada na Basílica de Santa Maria Maior, uma das quatro basílicas papais em Roma.

CIPOTÂNEA. Em julho, retorna ao Brasil após quatro anos na Itália. Em 7 de agosto, o padre novo celebra a primeira missa em sua terra natal.

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