Os Atabaques jamais silenciarão! – tributo ao pe. Toninho

Os Atabaques jamais silenciarão! – tributo ao pe. Toninho

 Os Atabaques jamais silenciarão! – tributo ao pe. Toninho

 

Somos imortais pelos nossos desejos e mortais pelos nossos limites, escreveu Dostoievski.

É com essa frase que justifico a minha ausência nesse dia de homenagens ao Pe. Toninho um homem tão nosso e tão do mundo.

Parabenizo cada um de vocês pela iniciativa desse tributo e de tantos outros tributos e ações que ainda haverão de surgir, com as sementes lançadas pelo Toninho.

Quase não olho o cartaz e o convite do Tributo sem naufragar os olhos e desejar abraçar o Toninho.

É de fato como a perda de um membro do corpo que, de tão nosso, mesmo na ausência, parece estar presente.

Sou eu uma das sementes lançadas pelo Toninho.

Talvez hoje eu fosse um religioso da ordem Redentorista, pois foi com os padres de Aparecida, o meu primeiro contato vocacional.

Quis deixar então o meu pároco, naquela época o Toninho, ciente da minha intenção vocacional. Ele disse-me que eu iria era para Guararapes-SP, fazer o estágio vocacional, que já estava para começar em janeiro de 1997. Fui, fiquei, virei padre orionita.

Quando seminarista, nas férias ele me convidava todos os anos para cuidar da casa paroquial aí mesmo na Achiropita. Eu ajudava a saudosa Cidinha nos afazeres da secretaria. Mas, eu conversava pouco com o Toninho, ele estava sempre entre os livros, o computador, os encontros, reuniões, viagens. O momento do almoço para mim, era o evento, não pela comida, sempre boa, mas porque ele sentava-se com a gente, e falava. As coisas mais simples que falava vinha sempre com uma sabedoria e ponto de vista que raramente alguém ali teria tido, isso me encantava. Eu acolhia cada palavra como um saboroso bocado, que ficava depois ruminando, que era para não esquecer.

Queria tê-lo visto mais vezes. Após o almoço sem chance. De frente pra TV na hora do Jornal Hoje, a mania que tinha de movimentar o pé esquerdo como um pêndulo, prenunciava um breve e profundo cochilo. Os guerreiros precisam descansar. Pensava.

Certa vez em Porto Alegre, eu já padre, participava da segunda edição do Fórum Social Mundial, estava sentado à frente, a oficina estava para começar.

Ele me descobriu ali, e me lançou aquele olhar luminoso emoldurado pelo sorriso límpido e fácil, sorriso que também já transpassou o coração de muitos que hoje estão aí nesse tributo. Lá no Fórum tive um sentimento meio bobo, senti-me como um filho sob o olhar de um pai orgulhoso. Era isso, eu estava ali para dizê-lo, ainda que só com a minha presença, o quanto tinha crescido, o quanto havia aprendido com ele; queria dizer-lhe que participava dos encontros de consciência negra em Porto Alegre, que celebrava missas afro, que exercitava o ecumenismo na pastoral carcerária, queria dizer-lhe que o futuro da teologia na qual navegávamos parecia já naufragar, queria falar-lhe o quanto também me preocupava a mudez dos intelectuais…

Era como se um filho acorresse ao pai para dar-lhe a notícia que sozinho aprendera andar de bicicleta – quantos tombos se seguiram depois disso.

E confesso, sinto-me mais tolo ainda por partilhar com vocês esse sentimento.

Mas, o que eu queria de fato ali, era vê-lo e ouvi-lo. Vê-lo, como disse sempre tão transfigurado e ouvi-lo falar sempre de um outro ponto de vista, ouvi-lo falar de uma outra margem da alma.

Eu aqui, aprendiz e órfão, fiquei sem novas poções e segredos, que afugentem a morte e faça despertar a Esperança. Como ele fazia tão bem.

Em algumas circunstâncias no meu cotidiano, exercito-me, para saber o que o Toninho pensaria, o que ele faria, qual seria seu ponto de vista. Esse esforço tem me tornado uma pessoa melhor.

Como os antigos livros sagrados, o Toninho deixa-nos de herança valiosos fragmentos e – por sua falta – um grande hiato.

Os fragmentos são chaves para grandes descobertas

O hiato para lembrar-nos que agora, é com a gente.

Para aqueles que conheceram o Padre Toninho

Para aqueles que postumamente o redescobrem.

Para aqueles que só agora, a ele são apresentados.

Digo, que a memória do Toninho, cada vez que evocada deve ter o efeito de uma canção.

Uma canção de ninar a alma cansada pela fuligem do pessimismo;

Uma canção que espaireça a névoa espessa que envolve a igreja e o mundo;

Fazer memória do Padre Toninho, é também fazer memória dos santos que a gente sonha venerar: memória leve, alegre, afetiva, com cor e gosto de Esperança.

Daqui onde os afazeres de um “pároco de aldeia”, limitam o meu desejo de estar com vocês nessa homenagem, sincronizo as batidas do meu coração ao ritmo dos batuques desse Tributo.

Daí, daqui, façamos juntos a ele, uma promessa possível:

Toninho, irmãozinho mais velho, em teu nome, os Atabaques jamais silenciarão!

Axé!

 

Pe. Paulo Sérgio Martins, FDP

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