DOM ORIONE: Como viveu o dia 9 de março de 1940, 4 dias antes da sua morte

DOM ORIONE: Como viveu o dia 9 de março de 1940, 4 dias antes da sua morte

O sábado, 9 de março, é o dia da partida para Sanremo. De manhã, ao vestir-se, Dom Orione comenta com Zambarbieri: “É pobre a minha veste, não tem nem mais jeito, igual a minha vida”.

 

Celebra a Missa da comunidade, distribui mais uma vez a Comunhão para todos. Faz isso apoiando o cotovelo esquerdo sobre a mesa do altar, sem movimentar-se. Depois vai até Pe. Gatti: “Desejo fazer a minha confissão, uma confissão ad mortem”. Volta novamente para o quarto: quando sai dele, entrega a chave ao encarregado, o clérigo Costanzo Costamagna. Com a chave lhe entregou uma certa quantidade de dinheiro, não contados como fazia a cada dia, e lhe disse: “Depois te entregarão mais…”.

Dom Orione desce do quarto. No corredor estão dispostos em duas filas sacerdotes e clérigos, comovidos; ele sorri para todos, apressa o passo, está visivelmente emocionado. Pe. Calegari, que o esperava com o carro, recorda: “Ele pediu aos clérigos que se retirassem, talvez porque não queria ver alguma cena na rua e talvez porque a presença deles lhe dava pena. Pe. Sterpi, ao contrário, seguido pelos sacerdotes, foi até o carro, visivelmente emocionado. Foram dadas as últimas saudações e o carro partiu lentamente.

Na estação ferroviária de Tortona, enquanto esperava o trem, chegaram correndo Pe. Pigoli e os Diáconos que vinha da Catedral, onde tinham sido ordenados exatamente naquelas primeiras horas da manhã. Dom Orione os abençoou, sorriu, e se despediu deles um pouco desconcertado, não querendo que se criasse tanta atenção em volta da sua pessoa. Quando foi dado o sinal da chegada do trem, Dom Orione se levantou e, saindo para a plataforma, viu um fotógrafo que o esperava e conseguiu, com hábil manobra, despistá-lo, saindo apenas de relance na foto. Teve tempo para os últimos olhares e saudações. Esforçava-se para sorrir, transparecia o sofrimento de Dom Orione naquela derradeira despedida das pessoas e das coisas que lhe eram mais queridas. Acompanhava-o na viagem o clérigo enfermeiro, Modesto Schiro, que narra assim como tudo aconteceu.

A viagem para Sanremo. “O trem estava totalmente lotado. Encontramos um lugar para ele na cabina com capacidade para 8 pessoas, com os bancos de madeira, para fumantes. Já estavam lá 7 pessoas, ele foi o oitavo. Eu fiquei do lado de fora da cabine, em pé. O trem começou a se movimentar. Dom Orione, depois de um pouco de tempo, tirou da pequena mala, que tinha levado consigo, um tanto de cartas; pegou a caneta e começou a escrever. Trocamos de trem em Genova. Chegamos em Sanremo às 14h30.

Na estação não tinha ninguém nos esperando. De fato, eles vieram nos esperar por dois dias seguidos; e desistiram justamente no dia da nossa chegada. Pensavam que não viríamos mais. Pe. Bariani, que tinha partido de Tortona com o carro, pensava que chegaria na estação antes de nós, mas por vários imprevistos, chegou com abundante atraso. Saindo da estação pegamos um táxi que nos levou até Villa Clotilde.

Diante da Villa Santa Clotilde, desci e Dom Orione me fez um aceno para tocar a campainha. Não vinha ninguém. Continuei tocando e finalmente chegou uma irmã. Ao ver Dom Orione, quase se prostra: “Não tem ninguém em casa”. Dom Orione: “Bem! Vejam como recebem Dom Orione! Ninguém na estação, ninguém aqui”. E sorria: “Padre – disse a irmã –  foram todas para o Santuário de Bussana!”.

Entramos, fomos na igreja para fazer uma visita. Depois passamos pela sacristia: tinha um belo quadro de Dom Orione na parede. Dom Orione fica sério: “Tire, tire imediatamente, tire aquele quadro ali”. Não sabia o que fazer; finalmente decidi virar o quadro. Depois Dom Orione entrou em casa, se acomodou na sala de espera e se colocou ao trabalho, tirando da mala as cartas já escritas e o restante da correspondência.

O quarto de Villa Santa Clotilde já estava preparado. Eu peguei as cartas que devia colocar no correio e saí, para ir ao correio e para avisar Pe. Severino Ghiglione que Dom Orione tinha chegado. Pe. Ghiglione, com alguns assistentes do Instituto San Romolo, foi para Villa Santa Clotilde para saudar o Pai. Neste meio tempo chegou também Pe. Bariani com o carro. Chegaram as Irmãs. Desculpavam-se: “Nada, nada, sorria Dom Orione, estamos bem acomodados. Estamos bem assim. Não precisamos de nada”. Estava feliz.

A noite chegou bem rápida. Fui acender a luz, mas não tinha energia elétrica. Talvez estava com defeito. E Dom Orione: “Bem, bem, tudo bem! Viram? Até isto!”. E sorria… Era evidente que queria estar bem e manter-me tranquilo. Na parede da esquerda, em frente ao leito, estava uma mesinha com uma imagem de gesso de Nossa Senhora. Perto, dentro de um copo, uma pequena vela acesa já estava quase no final e iluminava o quarto, com luz tênue e tremulante. “Vem aqui, vem”, chamou-me. Colocou a mão sobre os meus ombros e disse: “Veja! Não parece um quarto de velório?”. “Não, não, é porque esta noite não tem luz…”. E ele sorrindo: “Tudo bem, tudo bem; tudo muito bem!”.

Jantamos juntos no parlatório; mas antes rezamos também juntos o Santo Rosário, com todas as preces da Congregação. Terminado o jantar, fomos para a igreja para as orações da noite; ele dirigiu a oração; depois, pelas 9 horas, fomos para o quarto.

A noite passou tranquila, dormiu bem”.

 (Publicado originalmente em italiano no site www.donorione.org; por Don Flávio Peloso)

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