“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14)

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14)

 

Por Cl. Renaldo Elesbão, religioso orionita

O Verbo é o clímax do mistério da criação. Tudo foi feito por meio da Palavra. Com a Palavra Deus se autorevela na criação. A criação é o reflexo do Criador. Dabar (faça-se) é o verbo hebraico que dinamiza a sucessão da grande “explosão”de Deus. A criação não se identifica com Deus. Deus a sustenta. Tudo subsiste Nele. Contudo, ele não se esconde nas coisas criadas, mas as concede sentido, existência.

O Verbo estava com Deus. Ele era imanente. Quando se fez carne Ele não se desnudou de sua glória, mas a elevou sobremaneira a um grau altíssimo. Agora o Verbo também é o “Dabar” de outrora. Ele é a própria Palavra que recria a criação em si mesmo. De sua imanência absoluta a sua “transcendência próxima”. Perto de nós sendo Ele mesmo. Sendo Ele mesmo se torna “distante”. No entanto, nos atrai.

Esse é o Mistério da Trindade que se revela na pessoa de Jesus de Nazaré. É o Dabar do Gênesis que Deus pai criou todas as coisas e é o termo grego, o Verbo, que João inicia seu evangelho para dizer do abaixamento de Deus. Ora, se dos três da trindade foi o Filho que se encarnou como podemos dizer que foi Deus que se revelou? Porque Deus é Uno e Trino. Se não fosse uma pessoa não poderia amar. E se é pessoa e ama só pode ser três. Eles não são idênticos, mas se unem no amor. O amor do Pai para como o Filho se realiza no Espírito Santo. Este nos vem do Pai pelo Filho. Então é o Espírito de Jesus que nos eleva ao Pai.

A Palavra agora inicia uma nova criação. Jesus é o novo Adão. Se o primeiro homem se escondeu agora Jesus une céus e terra. Ele é o Emanuel (Deus-conosco). É o Homem perfeito, desejado por Deus. Javé, de fato, se torna proximidade. O rosto de Deus se torna carne, pessoa humana. Em Jesus temos o mistério intradivino fora de si mesmo. Isso é maravilhoso! Deus se fez um de nós para nos divinizar. Como nos tornamos filhos de Deus? Amando como Jesus amou (cf. Jo 13, 34-35). Este é o modelo: Ser homem no Filho do Homem.

É preciso nascer novamente, disse Jesus a Nicodemos (cf. Jo 3, 3). Não do sangue. Ou seja, não mais da descendência de Abraão, mas da boa vontade. Quem quiser me seguir, venha e siga-me (cf. Mc 8, 34). As estruturas religiosas não mais definem o seguimento (cf. Lc 7, 36-50). Estamos no novo tempo. É tempo de Graça. É Kairós. É tempo favorável onde a bondade e a gratuidade nos atrai. A salvação de Jesus se torna leve. Livre de todo peso desnecessário. Vinde a mim todos vós que estais cansados, pois meu fardo é leve (cf. Mt 11, 28). Esses motivos foram vitais no início do seguimento, pois os doentes, os pecadores, as prostitutas, os pagãos receberam apenas um nome: cristãos. Jesus foi capaz de dizer que é preciso deixar noventa e nove ovelhas para ir em busca da ovelha perdida (cf. Lc 15, 3-7).

Todos aqueles que se aproximaram de Jesus, eram acolhidos. Todos eram incluídos. Levanta-te e vem para o meio (cf. Lc 6, 8). No ambiente excludente essas palavras eram libertadoras. O sentido para Zaqueu não foi dado pelo dinheiro e o luxo que daí derivava. Mas, sim, pelas palavras: Zaqueu, desce depressa porque hoje estarei em tua casa (cf. Lc 19, 5). A palavra de Jesus realiza o que proclama. É palavra performativa e autoperformativa (cf. Lc 4, 18-19; Mc 1, 40-45). Ou seja, ela não só realiza aquilo que se diz, mas que diz do próprio Jesus. Ele se entrega na palavra, pois “o Verbo era Deus… e habitou entre nós” (Jo 1, 1. 14).

Que grande alegria devemos ter neste tempo do natal. Ele nos recorda e nele se realiza o que significa, tempo de proximidade entre os homens e Deus (cf. Lc 2, 14). Jesus se deixa encontrar na simplicidade de uma criança (cf. Lc 2, 16). Nasce de forma normal. É Deus, mas se esvazia. É Rei, mas se despoja. É Homem. Sujeito as fragilidades de pessoa humana (cf. Mt 2, 11).

Verdadeiramente o Verbo se fez carne. Sensível e aberto a fraqueza humana. Deus e o homem se encontram. Tal encontro gera um nós, uma Comunidade, a Igreja. Eu (Deus-Pai), tu (Jesus-Filho) e ele (Espírito-Amor) se abrem possibilitando a conjugação do verbo amar na primeira pessoa do plural, a saber: nós amamos. Aqui, a pluralidade anula o egoísmo sem eliminar o indivíduo. Antes o elava a categoria de pessoa humana. A relação entre os homens e Deus é de pessoa à Pessoa, isto é, na liberdade. A única força é a do amor.

Todos os homens em Jesus são elevados como outrora foi Isaac (cf. Ge 22, 1-14). O sacrifício agora é substituído pela oferta gratuita de si mesmo ao Pai (cf. Lc 23, 46). Não é mais o sangue de animais ou de seres humanos que se oferecem a um deus desconhecido. Agora é o amor, a gratuidade que conta.     

Não podemos regredir fora desse novo tempo. Jesus é o Agora eternamente. A partir Dele temos acesso à Deus. O cristianismo é, sem dúvida, a religião do amor. Se não amo não sou cristão. “[…] porque Deus é amor” (1Jo, 4,8). Devo está atrás de Jesus o observando (cf. Mc 8, 34). Sua ação deve me impregnar a ponto de eu poder também realizar. Imitar Jesus não implica em negar a minha liberdade. Antes a imitação de Jesus me faz mais livre. Pois, é através do Espírito de Jesus que clamamos “Abba” (Pai) (cf. Gl 4, 6). Clamar a Deus é glorificá-lo. Glorificá-lo é amá-lo. Amando a Deus só é possível horizontalmente, isto é, o próximo deve ser também amado.

Nossa fé, portanto, não deve ser solta. Subjetivista. Desencarnada. Esquizofrênica. Nossa fé deve ser a fé em Jesus. Não podemos usar da religião para excluir. A fé em Jesus é proposta de vida nova. Minha vida sendo nova Nele será testemunha. Isso contagia. Chama. Não podemos complicar o seguimento a fim de manipular as pessoas criando separação entre puro e impuro (cf. Mc 7, 14-23). Pois, o que Deus purificou não é impuro (cf. Atos 10, 15).

O cristianismo é, com efeito, a religião do amor. E como a etimologia da palavra religião significa ligar de novo (re-ligar). Religuemos hoje e amanhã. Encarnemos, então, nossa fé, pois a fé sem obras é morta (cf. Tg 2, 14-18). Nisso seremos felizes e construiremos o Reino de Deus através da Caridade, porque “Somente a Caridade salvará o mundo”. Deixemos a gentileza do Menino Jesus nascer em nós e entre nós. Perceberemos, assim, a grandeza da vida. Seu sabor é indizível, mas é experienciável. Não é isso que ansiamos?  

 

REFERÊNCIAS

Bíblia de JERUSALÉM. Paulus, 2012.

CARRARA, Paulo Sérgio. Elevatio entis ad Patrem: a oração de Jesus e do cristão à luz do mistério pascal na teologia de Francois-Xavier Durrwell. BH: O Lutador, 2014.

CRUZ, S. João da. Obras completas. Vozes: Petrópolis. 2002.

LACROIX, Xavier. O corpo de carne: As dimensões ética, estética e espiritual do amor. Loyola, 2009.

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. Loyola, 6ª ed. 2012. 

 

 

  

 

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