A empatia e o diálogo inter-religioso

A empatia e o diálogo inter-religioso

A empatia constitui a pessoa humana. O homem sendo pessoa, porque é livre e espiritual, pode transcender o mundo dos objetos. A transcendência lhe é peculiar. No mundo dos seres vivos o homem é o único que pensa, reflete, avalia e decide. A liberdade é intrínseca a pessoa humana.

Segundo Edith Stein (1891-1942) o termo empatia descreve o encontro entre as pessoas. Etimologicamente empatia significa senti com. Sentir dentro de. Não como simpatia. Empatia é sui generis, isto é, está na gênesis dos demais atos. Simpatia e antipatia são vivências relativas à psique. Empatia se passa na pessoa toda, ou seja, na esfera corpo, psique e espírito.   

A empatia é a vivência que podemos colher a experiência alheia. Dentro dos três graus de presentificação, a saber: a aparição do outro com sua vivência; a objetivação da vivência e o conhecimento da vivência. Vivência é o material vivencial da pessoa alheia. Que diz respeito só a ela.

A empatia, contudo, possibilita a participação na experiência do alter ego. Sendo o outro outro eu podemos vivenciar o objeto da vivência como ele vive. Não na mesma intensidade, pois a vivência é só dele. Origina nele. O que vivencio é não-originária. Stein nos apresenta um exemplo: Meu amigo vem a mim e me diz que seu irmão morreu. Eu noto sua dor. Esse notar é a empatia mesma. Percebo-o, apreendo e compreendo sua dor. Esses são os passos fundamentais da empatia.

Todos nós temos empatia. Porém, urge uma educação empática, pois os primeiros graus empáticos não dependem da nossa vontade. É espontâneo. Já no terceiro grau, o da compreensão, depende da nossa formação espiritual. Essa dinâmica se refere à vontade e a liberdade. Entretanto, a empatia não implica compaixão, mas é uma possibilidade ética.

Com isso, a inteligência humana deve ser instigada. Todo ser humano é pessoa em potência. Mas, o ato da potência é fruto da liberdade. O ser humano nos é dado, mas a pessoa humana é o resultado da educação, da cultura e da liberdade. Assim, como Deus é pessoa formos criados a sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26).

Se a empatia nos faz pessoa humana e nos assegura um mundo propriamente humano, então ela é fundamental nas relações intersubjetivas. Ou melhor, como afirma Karol Wojtyla (1920-2005), interpessoais. Ser pessoa humana implica percepção do outro eu e compreensão de sua vida. Isso aproxima as pessoas humanas. Assim, elas se entendem e criam um ambiente de respeito ante a dignidade do outro. O outro é como eu. Eu o percebo. Noto sua vivência. Ele é alguém para mim. É pessoa humana.

Disso segue uma comunicação. Comunicação exige saída de si mesmo ao alter ego. Pois, por analogia, vejo que também vivo como ele vive. Isso é maravilhoso! No mundo das pessoas existe intercomunicação. O diálogo entre eu e o outro que vem mim nas suas diferenças étnicas, ideológicas e religiosas são possibilidades de riqueza pessoal.

Stein nos afirma que o encontro com o outro ratifica e retifica minha posição ante mim mesmo e o mundo. Os valores que daí decorre podem me ajudar a ser mais realizado. O homem só se realiza entre outros homens. A diferença não é ameaça como dizia Jean-Paul Sartre (1905-1980). O outro não é meu inferno.

O próximo é meu irmão (cf. Mc 3, 3; Lc 10, 30-37). Wojtyla confirma o Evangelho pela categoria da Participação. Esta abre a possibilidade da realização pessoal. A formação humana, na Participação, garante a atualização do ser da pessoa. Quanto mais me encontro com as pessoas mais adquiro conhecimento de mim mesmo, do outro e do mundo. A relação interpessoal assegura a vida humana. Com isso, não podemos concordar com o filósofo Thomas Hobbes (1588-1679) que afirmava que o homem é o lobo do homem. Jesus veio aproximar a todos numa só redil (cf. Mc 7, 24-30).

Desse modo, o diálogo inter-religioso é urgente. O papa Francisco tem continuado os passos dos seus antecessores nesse sentido. Isso nos permite perceber a necessidade de uma sociedade empática. A indiferença gera desconfiança. Notamos hoje que temos medo do outro como se ele fosse nos roubar. E as relações entre as pessoas, muitas vezes, são de prazer, de objeto. A pessoa deve ser tratada sempre como fim e nunca como meio, afirma a tese de antropologia filosófica Amor e responsabilidade de Wojtyla. Objeto só de amor e nunca de prazer.

Todo ser humano é pessoa e sendo pessoa é digno de respeito. A Participação que Wojtyla apresenta como atualização da pessoa na comunidade não é utilitarista. A concepção utilitarista usa a pessoa como meio de gozo. Esta corrente pode está mesclada nas nossas relações. Vemos isso quando queremos evitar a dor para termos o máximo de prazer. Só o amor pode nos oferecer prazer integrado. Só o amor ao outro rompe as barreias da separação étnica e religiosa.

Vimos atualmente, na França, o atentado terrorista. O terror no Jornal Charlie Hebdo deveria ser previsto, pois “ninguém deve ridicularizar a fé dos outros”. Podemos confirmar o que o papa Francisco disse que “há limites na liberdade de expressão”. É preciso respeitar as opiniões e expressões religiosas. Como queremos paz construindo discórdias através de críticas absurdas? Todos sabemos que o jornal queria vender notícias. É correto desrespeitar as crenças alheias em nome de ibope, de dinheiro?

Evidentemente, não podemos concordar com o terrorismo. A morte não se justifica. “Pois a mansão triste dos mortos não vos louva” (Is 38, 18). Porém, não devemos concordar com os jornalistas “críticos” que desrespeitavam as outras formas de crer. Se eles não acreditavam não tinham o direito de depreciar os outros. Não é pela violência visual, oral ou física que resolvemos os problemas. Porque, disse o papa: “Não se pode ofender ou fazer guerra, ou assassinar em nome da própria religião ou em nome de Deus”.

A empatia pode nos ajudar a construir um mundo humano onde todos têm espaço de Participação. Stein, como judia, amava seu povo antes e, mais ainda, após sua “conversão”. O mundo deve ser um lugar comunitário. Aqui todos podem se expressar religiosamente. Contudo, que seja para o bem. O problema é que falta empatia plena nas nossas relações. Compreender é reservado aos seres humanos. Parece que muitas atitudes nossas não são empáticas no sentido pleno, mas incompletas. Conhecer o outro implica respeitar as diferenças. O outro garante meu desenvolvimento enquanto pessoa. Preciso do outro. Quem não sabe lidar com a diferença deve ter problemas consigo mesmo. Se o rosto do outro me incomoda é porque não suporto o meu. A saída de si mesmo pressupõe liberdade.

Jesus nos convida a termos amor pelo próximo. E este é todo aquele que se aproxima de mim. Não somente aquele do qual eu me aproximo. Ou seja, não determino quem é o meu próximo. Nisso consiste toda a convivência humana.

Se não procedermos assim o mundo humano não passará de um espaço animal humano ainda necessitado de humanização. Se não seguimos Jesus como exemplo de aceitação do diferente não adianta sair nas ruas gritando pela liberdade de expressão de alguns. Todos têm o mesmo direito de expressão. Porém, a expressão tem limites. Aliás, tudo nessa vida tem limites. Saber disso e viver isso constitui a pessoa humana. Pois, ser ser humano implica, empaticamente, apreender a realidade constituída de outros seres humanos. Quem não suporta o outro deveria morar na lua fazendo companhia a “São Jorge”. Penso que precisamos de metanóia cristã (cf. Mc 1, 15).

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, R. Elesbão de. A Empatia em Edith Stein. Cadernos IHU. Ano 12, nº 48, 2014.

Bíblia de JERUSALÉM. Paulus, 2012.

WOJTYLA, Karol. Persona y acción. Biblioteca de autores cristianos. Madrid, 1982.

WOJTYLA, Karol. Amor e responsabilidade. Madrid: Livraria Editora Pax, Braga, 1979.

 

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