A ATUALIDADE SOCIAL E ECLESIAL ESTIMULA A PROFECIA DO CARISMA ORIONITA

A ATUALIDADE SOCIAL E ECLESIAL ESTIMULA A PROFECIA DO CARISMA ORIONITA

O diálogo com a atualidade social e eclesiástica é para nós orionitas constitutivo e “constitucional”[1] do nosso carisma e da nossa tradição de Congregação.

A “planta única com muitos ramos”, a Pequena Obra da Divina Providência, tem a sua vitalidade na seiva interior, no carisma e no espírito que a anima, mas também no contexto do ambiente e no clima histórico no qual a planta cresce, se desenvolve e produz frutos. Tanto a seiva quanto o ambiente são dons da Providência.

            A atualidade social e eclesial incentiva a profecia do carisma orionita em três direções:

            1. rumo a novas obras “de acordo com os tempos novos”,

            2. rumo a novas modalidades e novos métodos para agir,

            3. rumo à nova identidade (e formação) daqueles que atuam.

           

Nunca, como hoje em dia foi tão difícil fazer um discurso sobre a atualidade social e eclesial por causa da complexidade dos seus fenômenos e pela fluidez-liquidez de mudanças contínuas.

            Olhando para a realidade, pode-se observar que o continente ideológico da cultura atual é globalizado, enquanto o conteúdo, as vivências são muito fragmentadas, instáveis, líquidas.

            Procurarei assinalar alguns fenômenos amplos e  gerais da atualidade social e eclesial que incentivam a particular profecia do carisma orionita, consciente que estes se realizam com muitas variantes, em cada nação e nos particulares ambientes sociais e eclesiásticos.

 

 

O CONTEXTO CULTURAL SE CARACTERIZA PELO PENSAMENTEO FRÁGIL[2]

E INCENTIVA RESPOSTAS CARITATIVAS (EDUCATIVAS E ASSISTENCIASI)

QUE VIVEM A  “CARITAS IN VERITATE”.

 

            O pensamento fragil disseminado e dominante constitui hoje a ameaça principal à vida e ao “humano”. A vida humana hoje em dia não é ameaçada, principalmente por aquilo que vem de fora, das forças da natureza ou dos “Cains” que matam os “Abéis”, mas muito mais por aquilo que vem do seu interior, do seu pensamento fragilizado. Isso se traduz numa visão niilista, em desestima pela  vida, coisificação (manipulação, mercantilização etc.) da vida. O pensamento fragilizado  hoje em dia permite todo tipo de ofensa à vida, a globalização da indiferença perante a  práxis de morte são cientificamente programadas, socialmente justificadas e legalmente reguladas[3]:  a violência contra milhões de seres humanos que estão abaixo do nível de pobreza e morrem de fome, os desequilíbrios econômicos, que provocam desumanização e morte, a exploração do trabalho em prejuízo da vida e as tantas “estruturas  de pecado” que consciente e voluntariamente ofendem a vida humana. Chegamos ao ponto de considerar como expressão de progresso e civilização a morte programada, provocada ou aceita voluntariamente como o aborto e a eutanásia.

Hoje precisamos combater com o veritatis splendor o obscurecimento  da razão  e com o calor do amor a frieza mortal do egoísmo (omnia vincit amor)[4].

            Frente às ameaças à vida dos mais fracos (vida dos que estão nascendo e dos que estão ficando velhos, limitada e doentia, pobre econômica e socialmente) somos desafiados a viver e propor o humanismo evangélico, reconhecido pela razão, confirmado pela fé, assumido e transmitido por Dom Orione na inseparável circularidade de verdade e da caridade.

            Dom Orione nos transmitiu não somente a “veritas in caritate” (Ef. 4, 15) mas ainda mais a “caritas in veritate”,[5] tanto afirmada por Bento XVI como profecia eficaz para os tempos atuais. Somente unidas, caridade e verdade, se dão crédito reciprocamente no contexto social e cultural atual que relativiza a a verdade a opinião  e reduz a caridade a sentimentalismo. “Somente a verdadeira caridade salvará o mundo”, isto é, a caridade substantivada de verdade antropológica dada pela natureza-razão-fé.

            É importante manter unida caridade e verdade em relação ao homem, própria do cristianismo e de Dom Orione: caridade sem verdade pode ser facilmente vivida e percebida como um oásis de bons sentimentos, mas marginalizados, restritos à vida particular e subjetiva, sem nenhuma influência. As obras de caridade para serem hoje “faróis de fé e de civilização” devem estar fundamentadas sobre a verdade antropológica que diz respeito à pessoa e a vida social.

            No atual contexto social e cultural de pensamentos e de práxis fragilizadas, viver a caridade na verdade ajuda a intuir que a adesão aos valores do cristianismo não  é somente útil, mas indispensável para a construção de uma boa sociedade e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral. Neste sentido, as obras de caridade constituem uma base de evangelização. “Hoje em dia muitos voltam para Deus através das instituições beneficentes, de caridade e de promoção social;  estes são conquistados à fé pelas obras de bondade e do verdadeiro progresso”[6].

            “Sem Deus – observava Dom Orione profeticamente – se procura em vão de edificar. O poeta Tasso recorda em maravilhosos versos esta grande verdade:

“Não edificam aqueles que querem construir impérios (poder) sobre fundamentos humanos; pois acabam movendo ruinas sob as quais fican sepultados”.

            Liberais, maçons, socialistas, trabalhem, trabalhem, e escavareis o sepulcro uns dos outros. Os povos se cansarão de vocês que lhe apascentam de trevas, de terra e de ódio; os povos têm necessidade de amor, de luz e também de um bem que não é terreno. O povo se cansará tanto de vocês que bastará levantar um crucifixo para cair de joelhos aos pés de seu Deus e retorne arrependido a olhar a Cruz, sinal vitorioso de justiça, de paz, de redenção moral, econômica e civil”[7]

           

O pensamento frágil (sem capacidade e sem interesse em relação à verdade) e o relativismo ético (carente de valores fundamentais) levaram à perda dos direitos da pessoa humana e das leis que os salvaguardam[8]. Multiplicam-se as leis que não levam em consideração os valores  essenciais do ser humano em relação à sexualidade, ao casamento, ao nascimento e à morte, à paternidade e à maternidade e outras realidade humanas fundamentais. Quando se perde a referência aos valores humanos naturais e racionalmente compreendidos, é fácil para os meios de comunicação social captar e controlar o consenso da maioria, único árbitro dos direitos e das leis.

            Não se trata somente de reagir à prepotência das ideologias em contraste com a visão do humanum de acordo com a razão e a fé, mas de propor a experiência cristã como sal e luz da humanidade. É quanto nós podemos e devemos fazer em nossas comunidades cristãs e religiosas, em nossas atividades educativas e assistenciais. Papa Francisco privilegia o anúncio à apologia da fé cristã, a experiência à doutrina.

            O contexto ideológico e a ética dominante desafiam as nossas práxis, educativas e caritativas dando à estratégia do “somente a caridade salvará o mundo” uma nova e dramática urgência. Sim, por que neste mundo atual, a caridade  propõe nova e eficazmente a verdade essencial a respeito do ser humano, acessível a todos, da qual pode desenvolver-se uma visão (antropológica) e um comportamento (ética) respeitosos do humanum.

            Dom Orione, estrategista da caridade[9], explica:  “Parece-me que a caridade, também a mais humilde e honesta, seja a força mais popular em defesa da verdade católica; também assim demonstra-se que a Igreja ainda está viva, também no campo social e ainda é fecunda como força benéfica”[10].

 

 

A SECULARIZAÇÃO DA ATIVIDADE EDUCATIVA E DA ATIVIDADE ASSISTENCIAL COLOCA UM DESAFIO DE QUALIDADE E DE GRATUIDADE DE NOSSAS OBRAS

 

            A partir do século XIX, as atividades da educação e da assistência se tornaram atividades de justiça social pública e não somente atividades caritativas e obras de misericórdia. Aconteceu uma progressiva secularização da atividade educativa e da atividade assistencial, que por muitos aspectos deve ser considerada como um progresso da civilização: educação e assistência da atividade caritativa particular se tornaram atividades de justiça social pública; de “pias obras” se tornaram “obras de justiça”.

            Em muitos países, a previdência pública assumiu a atividade educativa e assistencial, que antes era exclusivamente obra de providência e desenvolvida na maioria das vezes por particulares e instituições da Igreja. Observa-se logo, realisticamente falando, que a previdência não atende a todos e muitos ficam desamparados, necessitados ainda da providência, da divina providência.

            Hoje no campo educativo e assistencial estão empenhadas instituições estatais, com ou sem fins lucrativos ou religiosas ou “de providência”.

            Além disso, existe outra tipologia: aquela de instituições que são de previdência (e de subvenções) públicas, mas administradas com espírito e finalidade religiosa. Muitas de nossas obras se encaixam nesta tipologia ou são mistas, em parte previdência e em parte da providência.

 

            A secularização da educação e da assistência social coloca uma interrogação a respeito de nossas escolas e obras sócio-caritativas: por que fazermos nós religiosos,  aquilo que o Estado já faz? Basta aos Filhos da Divina Providência serem bons administradores da previdência social?

            As nossas escolas e obras sócio-educativas subvencionadas pelo poder público só tem sentido se elas se distinguem pela sua qualidade humana e religiosa em servir às pessoas e se tornam modelo e fermento cultural, político e, especificamente, se elas são “púlpitos” de evangelização. Se falta a “qualidade humana e religiosa”, se elas não se constituem em um “modelo alternativo” de humanismo cristão, se não são “púlpitos de evangelização” para elas falta uma justificativa carismática e institucional.

            Dito isto, é necessário acrescentar que a Congregação tem um mandato institucional preciso que não pode nos iludir: “Fique bem determinado  que a Pequena Obra é para os pobres”[11]. Dom Orione deixava bem claro que “os mais pobres” são aqueles que estão fora da previdência social, os desamparados: “Aqueles que tem proteção de outra parte, para eles já existe a providência dos homens, nós somos da Providência Divina, isto é, existimos para ajudar a quem precisa e para quem já esgotou toda providência humana”[12].

            Ainda hoje existe a necessidade de fazer atuar aquele proprium orionino. De fato, em todas as nações, mesmo onde o bem-estar teve mais progresso, existem tantos “pobres fora da lei” (da previdência) e para eles há necessidade de “uma caridade fora da lei”, fora das leis da previdência, isto é, uma caridade gratuita, uma divina providência.

 

 

O SECULARISMO DO ATUAL CONTEXTO SOCIAL E ECLESIAL EXIGE

UMA RE-APROPRIAÇÃO CARISMÁTICA E APOSTÓLICA DE NOSSAS OBRAS.

 

            Em todos os países nos quais estamos presentes, até a algumas décadas, era suficiente abrir uma obra assistencial ou uma escola e esta era imediatamente uma obra de caridade, um bonito sinal da caridade da Igreja e da Congregação “para levar os pequenos, os pobres à Igreja e ao Papa para renovar tudo em Cristo”, de acordo com o nosso carisma.

            Hoje, depois da evolução que aconteceu, não é mais automático que uma obra assistencial, social ou educativa, seja ipso facto uma obra caritativa-apostólica[13]. O secularismo está relacionado não apenas ao contexto social mas também às nossas obras.

            Existem obras que, mesmo sendo consistentes, sólidas e dignas de aplausos, são “como todas as outras”, quase sem qualidade e sem significado apostólico. Foi por causa disso que surgiu o justo e necessário trabalho de tantos confrades, as inquietações, as impaciências e os projetos que nos Capítulos Gerais receberam o nome de “re-lançamento apostólico” “re-apropriação carismática”, “conversão apostólica” das obras de caridade. Todos percebemos a frustração  apostólica quando as “obras de caridade” não “abrem os olhos à fé” porque não possuem qualidade e função apostólica.

 

            O secularismo que permeia o contexto social e cultural atual nos pede uma nova inculturação/organização das ”obras de caridade” que são o instrumento principal do nosso carisma, que Dom Orione quis e é reconhecido pela Igreja.

            E não somente a dinâmica  das obras deve mudar, mas também aquela dos religiosos e dos colaboradores leigos que atuam nas obras. O nosso Capítulo Geral fala da identidade e do papel dos religiosos chamados a serem nas obras, acima de tudo “testemunhas”, “garantia do carisma”, ‘’pastores”, “formadores”, “profetas”[14], com dinâmicas de relações mais pastorais; fala da formação ao carisma dos leigos colaboradores.

            A  Congregação, há algum tempo está caminhando para uma nova e necessária inculturação (= discernimento, adaptação, renovação, re-plantação, criatividade) das obras carismáticas. Temos experiências interessantes que chamam a atenção de outras Congregações. Vão se destacando algumas inovações na modalidade de gerenciamento de nossas obras; procura-se descobrir um novo papel para os religiosos nas obras; a colaboração dos leigos é mais orgânica; existe uma nova atenção para a formação dos funcionários, cuida-se da relação apostólica da obra com o lugar onde ela está.

            Temos que continuar no caminho da identificação carismática e apostólica das obras de caridade de tal maneira que elas possam ser carismáticas e apostólicas também neste atual contexto de secularização. Em alguns casos, se tratará  de deixar certas obras para as quais não existe conversão ou que não se convertem em instrumentos de apostolado. Se não são púlpitos, as obras se tornam sepulcros da apostolicidade.

            Sei que a evolução das obras criou e cria tensão de interpretações e de soluções. É inevitável, por que não existem soluções imediatamente evidentes. A mudança das nossas relações com as obras, nos empenha, nos provoca, e algumas vezes também nos desencoraja. Porém estamos ali, a Congregação está ali para enfrentar as mudanças. Servem o diálogo e a troca de experiências positivas. Vai se delineando um caminho comum com as indicações dos últimos dois Capítulos Gerais e a ação dos Secretariados.

            Este Encontro “O desafio da caridade” nos ajuda a concluir uma etapa importante desta caminhada, que no sessênio 2010-2016, se concentrou nos Conselhos de Obra, nos Indicadores do balanço apostólico e na formação dos leigos colaboradores. Não devemos ser, nem catastróficos (“Chega, acabou o tempo das obras”) nem ficarmos iludidos (“As obras falam por si mesmas”). Ninguém deve se colocar fora do contesto mas deve oferecer a própria contribuição de ideias e sobretudo de colaboração prática em cada comunidade e nas atividades, na participação dos Secretariados e das outras reuniões de Congregação.   

 

 

EM UM CONTEXTO SOCIAL E CULTURAL

DE SERVIÇOS SEM RELAÇÃO E DE PRÁXIS SEM VISÃO DO HOMEM,

SOMOS ESTIMULADOS A VIVER E FAZER O SERVIÇO EDUCATIVO E ASSISTENCIAL

 COMO RELAÇÃO DE PESSOA (ATOR/OPERADOR) PARA PESSOA (DESTINATÁRIO), PARA PESSOA (FAMÍLIA, AMBIENTE, SOCIEDADE).

 

Seremos capazes de passar do serviço > à caridade na verdade, da caridade na verdade > ao anúncio de Deus (faróis de fé) e do homem (faróis de civilidade)?

É mesmo a inquebrantável dinâmica de amor aos homens e de amor a Deus que nos faz entender como as obras de caridade se tornam o precioso e contemporâneo papel de personalização/socialização humana e civil e de evangelização da Providência de Deus.

Isto é ainda mais necessário e eficaz hoje, em uma época de niilismo (negação) e de pensamento frágil (e de fé frágil) que resultam em relações frágeis e sociedade frágil.

Este objetivo ulterior (personalização e evangelização) a respeito da finalidade específica educativa e assistencial é intrínseco à missio das obras de caridade orionitas. Isso pede que as instituições da Pequena Obra sejam concebidas, modeladas e governadas cuidando ao mesmo tempo da qualidade de serviço, da caridade nas relações do bem da cidade, da relação com Deus.

O Pequeno Cotolengo de Gênova – anunciava Dom Orione – será a cidadela espiritual de Gênova. Além de ser a lanterna que está sobre a rocha! O Pequeno Cotolengo será um farol gigantesco que expandirá sua luz e sua calore de caridade espiritual também para além de Gênova e além da Itália[15].

No mundo orionita, é muito usada a qualidade das obras de caridade como “faróis de fé e de civilização”. Belíssimo! Mas fiquemos atentos para não conceber o farol como um monumento ou uma joia para guardar e sentir prazer. A dinâmica do farol será possível se no Pequeno Cotolengo, ou em qualquer outra obra ao serviço da vida, haja luz interna, isto é serviço competente, qualidade de vida, fé, amor fraterno, vida bela, e se assumir uma dinâmica de relação com a cidade, com pessoas e território que constituem o tecido civil do qual a obra faz parte e para a qual é destinada como seu fim ulterior.

Na realidade, se uma obra não tivesse luz de caritas e se fosse auto referencial, fechada em si mesma porque não comunica favorecendo relações com famílias, amigos, paróquias, organismos laicos, sociedade civil, Igreja… seria uma obra orioninamente morta, perderia a sua dinâmica de “farol” que difunde luz fora, longe, luz de civilização e de fé. As obras deixariam de ser “púlpito” apostólico e “cátedra” de civilidade, para dizer como imagens caras a Dom Orione.

Além do serviço educativo e assistencial, portanto, é necessário encontrar a linguagem e a relação para contar ao mundo, certamente com humilde pudor, mas também com convicção e decisão, a experiência de vida nova e de novo humanismo, vivido segundo a lei fundamental do serviço e do amor.

Nada de falso pudor ou timidez, “é necessário que vos lanceis em um trabalho que não seja mais só o trabalho que fazeis na Igreja”[16] e nas obras da Igreja. Não devemos, porém, seguir o ídolo da visibilidade que hoje leva ao exibicionismo, com as técnicas de agigantamento e de falsificação mediática. Trata-se simplesmente de estar em relação com a sociedade, como o sal e o fermento ou também como a lâmpada que “não se acende para colocá-la debaixo da mesa, mas sobre o candelabro para que ilumine a todos aqueles que estão na casa”[17].

Esta atenção a todos, o “todos” social, é muito típico de Dom Orione que sempre conjugava caridade pessoal e caridade social, caridade para com o próximo e paixão para com os distantes.

Dom Terzi contou que, ainda leigo, fazia parte de um pequeno grupo de jovens universitários acompanhados por Dom Orione em visita ao Pequeno Cotolengo de Gênova. Dom Orione, depois de tê-los deixado para ir encontrar-se com algumas pessoas distintas da cidade, voltando disse a eles: “vejam, esta obra é certamente para estes pobres que hospedamos, mas, gostaria de dizer ainda mais, é para aqueles lá, para que vejam e aprendam a caridade e se aproximem de Deus”.

Falou também de um personagem famoso de Gênova: “Salvatore Somariva me disse: não acreditava em Deus, mas agora creio porque eu O vi às portas do Cotolengo”[18]. Isso corresponde ao que dizia Santo Agostinho “Se vê a caridade, vê-se a Trindade”, recordado por Bento XVI em Deus caritas est 19, antes de falar dos “santos sociais” (nº  40) entre os quais nominou também Dom Orione.[19]

A Dom Adaglio, dava diretrizes para a implantação da Pequena Obra na Palestina: “estar ali, unicamente, como administrador do Patriarcado… não é o fim da nossa congregação. É necessário que sobre cada passo nosso se crie e floresça uma obra de fraternidade, de humanidade, de caridade puríssima e santíssima, digna dos filhos da Igreja nascida e brotada do Coração de Jesus: obras de coração e de caridade cristã são necessárias. E todos acreditarão! A caridade abre os olhos da fé e aquece o coração de amor para Deus”.[20]

 

 

DO CONTEXTO SOCIAL E CULTURAL QUE PRODUZ O “DESCARTE” DOS POBRES,

VEM O DESAFIO DE NOVAS PARTIDAS

EM DIREÇÃO “AOS MAIS POBRES E DESAMPARADOS”.

 

No atual contexto social e eclesial, o Papa Francisco promove uma “Igreja em saída”;[21] o seu repetitivo “andar à periferia”[22] é muito semelhante ao “fora da sacristia” tão caro a Dom Orione. Como no início do século XX, também hoje é necessário ter a coragem cristã de primerear – tomar a iniciativa”[23], se se quiser ser culturalmente e cristãmente interessante. O Papa Francisco convoca a um maior envolvimento social, a uma mais autêntica e concreta aproximação dos pobres, dos humildes, de tantas categorias humanas que se tornam “descartáveis”[24] da sociedade atual economicamente seletiva. É o mesmo desafio que se encontrou ao afrontar a Igreja italiana no tempo de Dom Orione. A experiência de Dom Orione no início do século passado constitui um critério interpretativo e de projeção na Igreja de hoje, antes de tudo para os orionitas.

Vocês aqui presentes são em grandíssima maioria protagonistas da estratégia apostólica orionita “mediante as obras de caridade” presentes nas instituições educativas e assistenciais. Poucos de vocês são representantes daquelas “novas respostas, ágeis e simples, menos institucionais”, de “instituições flexíveis” das quais fala o Capítulo Geral, que reconheceu que “alguns confrades, refazendo a epopeia dos padres, que ousaram em tomar novos caminhos para lugares de fronteira, ou para novas pobrezas emergentes”.

Em um congresso sobre as obras educativas e caritativas não podemos deixar de falar das obras… que não temos, isto é, de partir de novo para as novas fronteiras ou periferias dos “desamparados”.

A decisão 28 do Capítulo Geral diz que “cada província, discernindo na própria realidade as formas com as quais a vida é mais ameaçada (vida nascente, vida frágil, imigrantes, etc.), define a ação mais significativa para sua defesa. Em todas as nossas obras (educativas, assistenciais, paroquiais) são sinais de acolhida e interesse às pobrezas dos desamparados (abandonados)”.

Este “andar à periferia” dos pobres “descartáveis” da sociedade, os pobres “fora da lei” de assistência, aos “desprovidos” de providência humana, é intrínseco à dinâmica carismática orionita.

Dom Orione deu diretrizes claras: “Fique bem determinado  que a Pequena Obra é para os pobres”[25]. “Devo esclarecer bem que nós somos os padres dos pobres, e somos para os pobres mais infelizes e abandonados: para aqueles, isto é, que são os assim chamados escória, refugo da sociedade[26]. “Aqueles que têm proteção por outro lado, para eles já existe a providência dos homens, nós somos da providência divina, isto é, somos para suprir aquilo que falta e já exauriu toda providência humana[27].

É típico da ação caritativa de Dom Orione começar sempre dos mais pobres, dos mais frágeis, dos mais “desamparados” e privilegiar a ajuda das primeiras necessidades quando estas faltam (a vida, o pão, um teto, a saúde, a família etc.).

Também hoje, em qualquer nação que estamos, começar dos mais pobres é uma escolha permanente e para renovar com contínuo “partir de novo”. A congregação se renova exatamente com este “partir de novo dos pobres mais pobres”, seja em nações que chegamos agora (pensamos em Albânia, Romênia, Quênia, México, Filipinas, Índia, Moçambique e outros) ou em nações de antiga presença com iniciativas por categorias de pobres desprovidos de tudo (homens e mulheres sem casa e sem outros bens essenciais, meninos de rua, imigrantes, desajustados etc.).

Certamente Dom Orione une a caridade como “pronto socorro” à caridade como “promoção dos pobres”[28], “uma caridade iluminada que nada rejeitará de tudo que é ciência, que é progresso, que é liberdade, que é belo, que é grande e que marcou a elevação das gerações humanas”[29]. Cunhou a expressão “ciência caritativa[30] para dizer a compenetração nos conteúdos e nas finalidades entre ciência, verdade e caridade.

A Congregação, nos tempos atuais, está diante do desafio de viver, contemporaneamente e em relação entre elas, a caridade de “pronto socorro” e a caridade de “promoção especializada”. São duas dinâmicas distintas e complementares: o partir da necessidade primária dos mais pobres assegura a ancoragem existencial à “especialização na caridade”.

Parece-me que hoje, de fato, a Congregação tem necessidade de incrementar mais a atenção ao partir de novo das necessidades primárias dos pobres “desprovidos de qualquer providência humana”.

Todos os nossos recentes Capítulos Gerais propuseram como ordinária programação do nosso apostolado as “intervenções especiais diante das novas formas de pobreza”.

 

 

EM UM CONTEXTO SOCIAL E ECLESIAL DE “GNOSE RELIGIOSA

SOMOS CHAMADOS A “TOCAR A CARNE DE CRISTO”,

A VER E SERVIR CRISTO NOS POBRES.

 

O Papa Francisco descreve este contexto de “gnose religiosa” (ou “mundanidade espiritual”) na Evangelii Gaudium 93-97 onde fala de “gnosticismo da fé fechada na imanência da própria razão e sentimento”, de “neo pelagianismo auto referencial e prometeico”, “elitarismo narcisista e autoritário”, “cuidado do prestígio da Igreja sem real sentimento do Evangelho no Povo de Deus”, de “funcionalismo administrativo”, “auto satisfação egocêntrica”, dos “mestres espirituais e especialistas em pastoral do “se deveria fazer” que dão instrução, mas ficam de fora (não assumem as instruções)”.

Como antídoto à “gnose religiosa”, o Papa Francisco convida continuamente a “tocar a carne de Cristo”, a “entrar em contato com a existência concreta dos outros” (EG 270).

Dirigindo-se a nós orionitas, em 2009, o cardeal Bergoglio lembrou que “a fronteira existencial de Deus é o Verbo vindo na carne, é a carne do Verbo. É isto que nos salva de qualquer heresia, da gnose, da ideologia, etc. Aproximem-se da carne de Cristo. Vão às fronteiras existenciais com coragem… por exemplo nos cotolengos… aquele trabalho que fazem com crianças de rua… são as fronteiras existenciais… perder tempo para o deficiente mental, para o doente e o terminal; perder o tempo, consumir o tempo com eles, porque são a carne de Jesus”.

 

“Tocar” significa mesmo “tocar” a carne de Cristo, “colocar o dedo”, entrar em contato direto, pessoal, com o povo, com os pobres. O Papa Francisco fala sempre do “cheiro das ovelhas” que o pastor deve ter. Ter o cheiro das ovelhas – explica em EG 24 – quem “se coloca mediante obras e gestos na vida cotidiana dos outros, que encurta as distâncias, que se abaixa diante da humilhação se é necessário, e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores têm assim, cheiro das ovelhas e estas escutam a sua voz”.

Para nós orionitas significa ter cheiro do Cotolengo, cheiro do patio, cheiro dos lugares onde o povo está, sapatos empoeirados das ruas da periferia.

Religiosos e leigos da Pequena Obra não devem renunciar ao “alto privilégio de servir Cristo nos pobres”: de modo organizado e articulado, certamente, mas também de modo pessoal e direto, corpo a corpo, alma a alma.

Para nós orionitas é muito importante escutar repetidas vezes pelo Papa a toda a Igreja que “tocar a carne do Verbo” fazendo-se próximo daqueles que são “a escória da sociedade”, “os pobres mais pobres”, “o descartável da sociedade”, é em si mesmo experiência de Deus e evangelização.

Dom Orione nos transmitiu a consciência que quando nos aproximamos e ajudamos um irmão com necessidade ou realizamos um de tantos gestos e funções nas obras de caridade, nós fazemos obra de evangelização, porque “a caridade abre os olhos da fé e aquece o coração do amor a Deus”. Na comunicação popular, uso frequentemente duas imagens do Fundador: “Devemos ser padres de estola e de trabalho” e “junto a uma obra de culto surja uma obra de caridade”. São imagens que bem exprimem o dogma orionita da união de evangelização e ministério da caridade na nossa missão.

“Do coração do Evangelho – escreve o Papa – reconhecemos a íntima conexão entre evangelização e promoção humana, que deve necessariamente exprimir-se e desenvolver-se em toda ação evangelizadora” (EG 178). O serviço da caridade é parte integrante da vida da Igreja, como ensinou insistentemente o Papa Bento XVI. De fato, “a íntima natureza da Igreja se exprime em um tríplice compromisso: anúncio da Palavra de Deus (Kerygma-martyria), celebração dos sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São compromissos que se pressupõem unidos e não podem ser separados um do outro” (Deus caritas est, 25).

 


[1] No famoso Capítulo I das Constituições escrito por Dom Orione 22.7.1936 e nas atuais Constituições, art. 120, se fala  “daquelas obras de fé e caridade que, segundo as necessidades dos países e dos tempos… mais aptas a renovar em Jesus Cristo a sociedade”.

[2] Pensamento frágil proque incapaz de chegar à verdade, àquilo que é natural e racional, tudo é subjetivo, mera opinião.

[3] O cardeal Elio Sgreccia distingue 5 modelos antropológicos que levam a lógicas consequências de desumanização e de morte: o modelo não-cognotivista (não se pode conhecer a verdade e valores absolutos sobre o homem), modelo pragmático-processual (é ético aquilo que está de acordo com os procedimentos), pragmático-utilitarista (é ético aquilo que é útil), socio-biologista (valores e ética estão em evolução cultural), liberal-radical (fundado sobre a absoluta liberdade subjetiva). São todos modelos de ética sem verdade. Cfr Che gran cosa è l’uomo perché te ne curi! Le opere assistenziali tra etica e carità, “Messaggi di Don Orione” 2013, n.140, p.43-55.

[4] “Omnia vincit amor et nos cedamus amori” (o amor vence tudo, também nós nos rendemos ao amor) é uma expressão muito leiga do poeta latino Virgílio. Dom Orione a citou muitas vezes e comentou a seu modo, referindo-a ao amor de Cristo e ao amor fraterno.

[5] A referência à verdade era para Dom Orione estreitamente ligado carismaticamente à verdade da doutrina cristã transmitida pela Igreja e pelo Papa.

[6] Scritti 97, 154. É a mesma atração pelo bem da qual falava o profeta Zacarias (8, 23): “Naquele dia sucederá que pegarão dez homens, de todas as línguas das nações, pegarão, sim, na orla das vestes de um judeu, dizendo: Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco”.

[7] Scritti 53, 3.

[8] Mais do que uma nova ética mundial hoje devemos falar da dissolução da ética mundial que está simplesmente perdendo terreno para uma práxis individualista, facilmente guiada e induzida por grupos ideológicos e de pressão comunicativa que orientam a opinião pública em escolhas anti-humanas e destrutivas. Hoje não entramos no pluralismo ético, mas na confusão ética. Há uma crise radical e confusão daquilo que é humano. Os fundamentos e as evidências filosóficas e do realismo do bom senso sobre aquilo que os homens não suportam mais ou não são mais suficientes a fundar uma ética verdadeiramente humana.

[9] Este epíteto foi-lhe atribuído pelo Papa João Paulo II na homilia da Missa de canonização (16 de maio de 2004): “O coração deste estrategista da caridade foi ‘sem fronteiras porque dilatado pela caridade de Cristo’”. “Tantos não conseguem entender a obra de culto – argumentava Dom Orione – e então precisará unir obra de caridade. A caridade abre os olhos para a fé e aquece os corações de amor para com Deus. Precisamos de obras de caridade: essas são a melhor apologia da fé católica”; Riunioni p.81, 85.  

[10] Scritti 94, 202.

[11] No Capítulo I das Constituições escrito por Dom Orione (1936) e no art. 5 das atuais Constituições.

[12] “Os Filhos da Divina Providência vivem da mercê de Deus, da vida de trabalho e de pobreza, somente devemos ser para os pobres, para os mais pobres, para os refugos, para os desamparados da sociedade”; do Spirito di Don Orione V. 107.

[13] Refleti sobre este tema fundamental para o nosso carisma na circular: “Quais obras de caridade?”.

[14] Veja em especial as Decisões 16 e 17 e a Linha de ação 20 do XIII CG.

[15] Lettere I, 53 7.

[16] Fazendo um relatório de uma reunião de um Círculo Católico, Dom Orione escreveu: “Foi deliberado no Senhor de não olhar mais tristemente, ou criticar-nos entre nós, já que a sociedade pede um remédio para seus males… Falou-se da urgente necessidade de lançar-se no fogo dos novos tempos, por amor de Jesus Cristo, e do povo, já que a humanidade tem hoje grandíssima necessidade de restaurar-se na fé, e de reviver na caridade…”; Scritti 64, 161.

[17] Mt 5, 15. “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao vosso Pai que está no céu” (Mt 5, 16).

[18] Riunioni 130; Dom Orione definiu “um idiota que não vê nem quer saber nada de religião” (Parola IX, 425); depois se torna um generoso benfeitor do Pequeno Cotolengo de Gênova.

[19] Dom Orione falou da conversão de uma senhora idosa convertida no Pequeno Cotolengo de Claypole, a qual explicou: “como posso não crer na fé e na religião da Irmã que dorme no chão próximo à cama e que levanta 20 – 30 vezes cada noite para dar-me de beber e para servir-me… mais do que se fosse minha filha? (…) Viste? – concluía Dom Orione – aquela senhora foi lançada da fé à caridade sobrehumana da irmã”; Parola VIII, 195-196.

[20] Scritti 4, 280.

[21] Evangelii Gaudium 46 e 261 e em muitas outras passagens.

[22] “Todos somos convidados a aceitar este chamado: sair da própria comodidade e ter a coragem de reunir todas as periferias que têm necessidade da luz do evangelho”; Evangelii Gaudium 20.

[23] Evangelii Gaudium 24.

[24] Evangelii Gaudium 53 e 95. O Papa Francisco, em 2009, ainda Bispo de Buenos Aires, indicou diretamente aos orionitas este movimento: “vocês devem ir com o carisma de fundação às periferias existenciais, lá onde a existência das pessoas é matéria de descarte. Vocês sabem que estão neste sistema que é mundano, paganizado: temos aqueles que se acomodam e aqueles que avançam; aqueles que não se acomodam no sistema avançam, e aqueles que avançam são descartáveis. Estas são as fronteiras existenciais. Ali vocês devem andar”; vídeo-mensagem do Cardeal Jorge Bergoglio ao Capítulo Provincial dos orionitas, Buenos Aires, 9 de novembro de 2009, publicado em “Atti e comunicazioni della Curia Generael”, 2013, nº 241, p. 103-105.

[25] Scritti 62, 32.

[26] Scritti 75, 123.

[27] SCritti 97, 251.

[28] Const. 118.

[29] Scritti 111, 125. Citando Pasteur, Dom Orione afirma: “a salvação, não só dos hospitais, mas também do mundo, está sob as duas grandes asas: caridade e ciência”; Scritti 61, 169. Falando do principal instituto de caridade de Gênova, destinado aos deficientes graves físicos e psíquicos, escreve: “Gostaria de fazer do Paverano um instituto do qual a Província e Gênova tivessem sempre de orgulhar-se: caridade e ciência!” (47, 245).

[30] Scritti 57, 169.

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