A culpa é das estrelas

A culpa é das estrelas

A culpa é das Estrelas – John Green

 

Faltando pouco para eu completar meu décimo sétimo ano de vida minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca não saia de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu abundante tempo livre pensando na morte. Sempre que você lê um folheto, uma página da Internet ou sei lá o que mais sobre o câncer, a depressão aparece na lista dos efeitos colaterais. Só que, na verdade, ela não é um efeito colateral do câncer. É um efeito colateral de estar morrendo. (O câncer também é um efeito colateral de estar morrendo. Quase tudo é na verdade.)”

 

Inicia assim A Culpa é das Estrelas, uma intensa, dolorosa, fantástica viagem na vida de dois adolescentes normais, não fosse o mal aterrador e “desesperançador” como o câncer.

Hazel tem dezesseis anos e um passado assinalado pela doença que adquiriu ainda na tenra infância e que por dever, traz consigo uma bomba de oxigênio para os seus débeis pulmões. Acreditava que morreria “rápido”, mas três anos antes um remédio experimental coibiu o crescimento do câncer e ainda provocou sua regressão.

Gostei muito dessa garota forte, sarcástica, cínica ao ponto de ser terna, extremamente consciente da situação e resignada a uma vida “diferente”.

A sua história começa quando a mãe, achando que Hazel iniciava uma depressão, a motiva a frequentar um grupo de ajuda para jovens doentes de câncer, onde os encontros aconteciam todas as quartas a tarde nas salas de uma Igreja:

 

“O grupo era formado por um elenco rotativo de pessoas com várias questões psicológicas desencadeadas pelos tumores. A razão de o elenco ser rotativo? Efeito colateral de se estar morrendo. O grupo de apoio era mega deprimente, óbvio.”

 

É em um desses encontros que se apresenta Augustus Waters:

 

“Alto e magro, mas musculoso, ele fazia a cadeira de plástico, daquelas usadas em sala de aula, parecer minúscula. Cabelo acaju, liso e curto. Parecia ter a minha idade, talvez um ano mais velho…”

Durante o encontro Augustus (que já teve câncer em uma perna e por isso a teve amputada) exprime o seu maior medo, o “esquecimento”, e ao pedido de Patrick (o responsável pelo encontro) de um voluntário para responder ao jovem Augustos, pela primeira vez Hazel levanta a mão:

 

“Vai chegar um dia – eu disse – em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui – fiz um gesto abrangente – vai ter sido inútil. Pode ser que este dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do Sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto pra lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz. […] Assim que terminei fez-se um longo silêncio, e eu pude ver um sorriso se abrindo de um canto ao outro no rosto do Augusto – não o tipo de sorriso cafajeste do garoto tentando parecer mais sexy ao me encarar, mas um sorriso sincero, quase maior que a cara dele. Caramba – disse ele baixinho – Não é que você é mesmo demais?

Realista até o limite da indiferença, muito inteligente e fora dos “esquemas”, Hazel salta das páginas do livro assim como o coração de Augustus. O relacionamente dos dois pode ser chamado de “estranho”, não são dois adolescentes como os outros. A infância dos dois foi marcada pelo mal do câncer e uma coisa eles tem bem claro: o tempo é precioso, indefinido, limitado. É assim que iniciam o processo de conhecimento mútuo, ela aconselhando a leitura de um livro para ele (Uma aflição Imperia de Peter Van Houtenl – Fictício) e Augustus inidicando um filme para que ela assista (V de Vingança). Para Hazel o livro é muito importante:

 

“Os meus pais eram os meus dois melhores amigos. O meu terceiro melhor amigo era um escritor que nem sabia que existia”.

Inicia assim um enamoramento. Ele, um apaixonado pela vida e pelas coisas. Ela resignada e desperta para sua realidade. O ponto de encontro se torna um ponto de partida. O maior sonho de Hazel é o de encontrar Peter Van Houten (também compartilhado por Augustus): um escritor que publicou somente uma obra – Uma aflição Imperial – e vive recluso. Um livro que não tem um “fim” e termina com tantas perguntas por responder, que o desejo da jovem Hazel, antes de sua morte, era o de ter algumas respostas do Autor. Augustus decide com ela utilizar o seu “Desejo”: encontrar Peter Van Houten, que mora em Amesterdã, para responder aos questionamentos provocados pelo seu amigo livro.

Daqui inicia um verdadeiro romance que fala de uma viagem que mudará tudo na vida dos dois jovens, que juntos, descobrirão o que quer dizer felicidade, e o que é verdadeiramente “um momento perfeito”. Claro! Tudo isso a custa de um preço alto, quem ninguém, no mundo, deveria ter que pagar.

O livro termina de maneira trágica (não se preocupe, não revelarei nada), mas a força e o amor que Hazel e Augustus demonstram é tão forte que confunde. Não tem um falso bonismo, palavras ditas para agradar e consolar. A realidade é dura e a honestidade extrema é a única forma de compaixão possível.

 

“Gostaria tanto de ser o suficiente para você, mas não consigo. Tudo o que está ao seu redor não poderá nunca ser o suficiente, no entanto é tudo aquilo que pode ter. Pode ter a mim, a sua família e este mundo. É esta a sua vida. Peço desculpas se não é o bastante. Mas você não será o primeiro homem a andar em Marte, e não será uma estrela da NBA, e não sairá à caça de nazistas”.

O amor neste romance é muito atípico, somos habituados às sensações quase mágicas e momentos fantásticos de um “eu te amo” à luz de velas, um amor à primeira vista e um “por toda a vida”… (como se a vida nunca acabasse). E se os nossos protagonistas soubessem que o tempo deles está terminando? Que um futuro juntos “por toda a vida” não existe? Que não podem viver aquele momento sem carregarem consigo o “Felipe” ou uma perna de pau?

É incrível como este livro consiga encher e esvaziar, contemporaneamente, aquele que o lê. É de uma tristeza infinita e de uma beleza excruciante. Siga a vida difícil e complicada destes dois jovens e entenda com eles o quanto é importante cada instante, compreenda que não têm todo o tempo deste mundo, que aquilo que tem é o aqui e agora.

A culpa é das Estrelas é um livro difícil. Em momentos odiará tudo o que lê, mas não conseguirá deixar de ler cada página dolorosa e bela que aos poucos vai desvelando os personagens principais. Ela, cínica, resignada e sempre com raiva. Ele, aberto, divertido e gentil. Tudo leva, a quem lê, a interrogar-se sobre a vida, sobre a morte, sobre as injustiças, sobre conceitos como lealdade, amizade, amor, honra e dignidade. Lida a última página com lágrimas nos olhos ficará chocado, pasmo, embasbacado. Sentirá que algo lhe falta e contemporaneamente que tem tudo que precisa e que, graças a Deus, pelo momento está bem e que deve iniciar a viver de verdade.

 

Desejo a todos uma boa leitura!

Pe. Bruno Rodrigues.

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